quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Cigarro I

Lurdinha , nervosa, quase tremendo, parou na banca e catou suas moedas no fundo da bolsa. Não dava pra comprar os dois. Então ficou em dúvida entre o chocolate e o cigarro.

Sentou no meio fio e, olhando para os carros que passavam na avenida, bem perto de seus pés, ficou se lembrando de seus três últimos namorados.

-Namorados porra nenhuma. Disse, soltando a fumaça com raiva. O único que prestava era o R. Quer dizer... prestava mais ou menos. Era bom. Muito bom. Só me envolvi com ele porque tava numa fase de crise de consciência. precisava agradar minha mãe. Mostrar pra ela que eu era capaz de arrumar um namorado que desse pra apresentar pra família e levar nas festas de natal. E o pior é que ele adorava isso. Ele e minha mãe formavam um time. E o cara ainda mandava bem na cozinha. E tinha um jardim. E me fazia fumar muito, de tédio.

Depois veio o B. Um gato. Lindo de morrer. Educadíssimo. Todas as minhas amigas ficaram horrorizadas quando o conheceram. “Muito gato esse cara”, “que sorriso”, “ai que inveja”, “como você tem sorte”. E isso alimentava a relação. Ele falava errado, escrevia errado. Não sabia o que era fuso-horário e ainda inventava versos de amor depois do sexo. O que me fazia fumar e dormir logo em seguida.

Ai conheceu o Jorjão. Pô. Parece até brincadeira. Jorjão. J-O-R-J-Ã-O. Cara de mau, mão calejada, braço naturalmente musculoso .Cheiro de homem. Não tinha jardim, não sabia cozinhar, não fazia poesia. Só de pensar ficava arrepiada. Foi ele que fez isso comigo. Foi ele que me deixou louca. Falava que me amava. Falava que achava feio uma menina tão linda fumar. Parei. Falava que eu era a menina mais linda que ele conhecia. Ele me chamava de menina. E eu, com quase 30, me sentia a própria menina nos braços daquele que veio e me roubou, me pegou pra ele e fez de mim o que quis. Porque eu deixei, claro... só porque eu deixei... até que um dia ele me disse que tinha acordado pensando em mim, e que era melhor “a gente parar de se ver porque eu já to saindo com outra “menina”. Aí eu deixei ele ir. E passei a fumar um maço por dia. Só de raiva do Jorjão

9 comentários:

r. disse...

"êta vida besta, meu Deus", já dizia o poeta.

[delícias os seus textos, carol. delícia sim]

www.manufaturanova.blogspot.com disse...

Caraca!! Minha boa descoberta da noite!! Teu blog tem textos MUITO bons!! ADorei!

Edu França disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Edu França disse...

1º: Lurdinha é uma mal-comida cofessa clássica!
2º: Jorjão é o cara, é o tal Canalha adorável, praticante da filosofia do chiclete (mastiga, mastiga e cospe)
3º: O Texto me lembrou a Terezinha do Chico Buarque.
4º: Lurdinha é nome de Personagem de Nelson Rodrigues, Jaiminho e o Canalha tbm. Sua proposta de conclusão merece um desfecho rodriguiano por isso vai assim:
COMER MAL UMA MULHER É GENUINAMENTE A PROVA DE AMOR!

PS: por esse texto vejo que o canalha mexeu com vc, nem que seja nas lembranças!

Erich disse...

Jorjão é o cara heim .... o típico pilantra que nunca é esquecido.

Edu França disse...

Lurdinha, meu alter ego kkkkkkkkkkkkk

Contos de F. disse...

kkkkkkkkkkkkkkk!!!!!!

eu tenho que pensar nas coisas que vc fala. achei graça mas nao sei o que isso quer dizer de verdade. af.

Anônimo disse...

muito bom, muito bom! ... as mulheres e seus cigarros, ops, homens.
b.

silva disse...

Jorjão fedaputa!!mas era "o homem" hein?